Antônio Pereira da Silva Neto, Zulu, nasceu em 17/10/1948 na Bela Vista. Oriundo da Barra Funda, iniciou-se aos dez anos, freqüentando os ensaios sem desfilar. Chegou ao Camisa em 1962. Saudosista, recorda de Seu Inocêncio. Muito sério e profissional, Seu Inocêncio influenciou, positivamente, na sua formação e, embora já tivesse a própria personalidade absorveu muito dos ensinamentos dele, um entrosamento perfeito. A Dona Sinhá, considerada como mãe de todos, aconselhava e se fazia presente em todos os momentos, cuidando para que ninguém desgarrasse e pegasse um mau caminho. Construía-se a quadra e a comida era feita por ela, porque as sextas-feiras se prolongavam. Ensaiavam às escondidas da família: saíam da Conselheiro Brotero, subiam a Rua João de Barros, entravam na Camaragibe, Lopes Chaves e, às vezes, faziam um ensaio na Mário de Andrade e, em outros, desciam direto a Conselheiro Brotero parando em frente à Votorantim, onde fica o Alárico (a fábrica da Firestone), depósito de pneu que, sem muro na época, servia como local de ensaio. Assim, após estar entrosado aos ensaios o primeiro desfile ocorreu da seguinte maneira: Seu Inocêncio e o compadre Tobias o levaram ao barracão e disseram ao Talismã: "Mumu, ele está querendo aprender". Então começou trabalhando no barracão, pregando ripinhas, varrendo e servindo água para o pessoal... A primeira participação dentro do samba foi empurrando alegorias, onde desfilou sem a roupa da escola porque não teria como explicar em casa.
"Acompanhei as transformações, como a mudança para a categoria de escola de samba. Na época respeitava muito aos mais velhos, e como era moleque e estava chegando, respeitava muito o Pilão, o Papudinho, o Pato N'Água... era esse pessoal que colocava ordem na batucada e a Dona Sinhá, o Seu Inocêncio, a Cida (irmã de Tobias), os coordenadores da escola, pois Tobias também era molecão e fazia parte da turminha com o Dadinho, Piúca, Bifinha... Na hora em que o cordão se preparava para desfilar sabiam se comportar e não vacilavam. Pegavam pesado e depois de encerrado o desfile tudo era alegria. Mas chegou um tempo que São Paulo não comportava apenas os quatro cordões: Camisa, Vai-Vai, Fio de Ouro e Paulistano da Glória, o outrora Campos Elíseos e Coração de Grós. Resumindo: Fio de Ouro, Campos Elíseos e Paulistanos da Glória pararam e restou o Vai-Vai e o Camisa e, portanto, perdeu a graça. Em ascensão estavam as escolas de samba Lavapés, Unidos do Peruche, Nenê de Vila Matilde, Acadêmicos do Tatuapé, Unidos de Vila Maria e, surgindo com uma força tremenda, a Mocidade Alegre. Foi inevitável a transformação para a categoria de escola de samba. Entretanto, o Camisa já vinha se adaptando para essa transformação. Seu Inocêncio tinha uma visão tremenda, então ele foi ao Rio de Janeiro e trouxe o Seu Delegado da Mangueira como harmonia e não como mestre-sala."
Delegado era excelente em ambos os cargos e, como não havia um mestre-sala, ele acabou exercendo essa função, aproveitando a escola e ele também, porque o Sr. Delegado foi um dos seus professores. A evolução na categoria de escola de samba foi muito rápida tanto que, entre 1974 e 1977, foram tetracampeões. Em 1979, foram campeões novamente e, em 1980, perderam para a Mocidade Alegre e sofreram um duro golpe: a morte do Seu Inocêncio que, antes de falecer, o nomeara Pres. da Harmonia. No primeiro ano sem a presença de Seu Inocêncio conquistaram o terceiro lugar e durante toda a sua passagem na escola nunca ficou abaixo dessa colocação. Em 1982, por opção própria, resolveu se afastar um pouco e, em 1983, trabalhou bastante pela escola sem desfilar. Retornou em 1984 e largou a farda somente em 1995. No início não contaram com o entendimento e o apoio das pessoas que trabalhavam com o Seu Inocêncio porque não conquistaram títulos, porém, revolucionaram o carnaval paulistano. "Falar de Tobias é difícil, mas a pessoa Tobias... muito alegre e espontâneo, com um coração enorme que não cabia no peito tamanho negrão, cheio de defeitos iguais a todos nós, porém as virtudes superavam outros quaisquer". No exercício da função sempre esteve cercado por milhares de pessoas e teve bom desempenho porque observava com admiração o trabalho de Sebastião do Amaral (Pé Rachado). O Camisa desfilava e ele corria para ver o trabalho do Pé, dizendo a si mesmo que um dia faria um trabalho igual. Depois de transformada em escola de samba e mesmo tendo pessoas respeitadas na casa, o Sr Delegado da Mangueira atuou no Camisa e numa das fases do seu aprendizado morou por seis meses na casa dele, onde teve a honra e a felicidade de conhecer e aprender muito com o Xangô da Mangueira, o Fuleiro, o Calça Larga do Salgueiro, o Jaburu da Portela. Seu desfile inesquecível foi em 1987, Barra Funda, Estação Primeira.
- "Lembrem-se: cada vez que a escola sair do portão, rumo à avenida estaremos indo a uma guerra saudável para fazer a alegria de muitas pessoas. Amem ao próximo, amem ao pavilhão como a bandeira nacional. Respeitem aos mais velhos, e que esses possam passar bons ensinamentos aos novatos. Façamos para que essa escola perdure por anos como a mais querida em São Paulo. O Camisa me proporcionou muito e onde quer que eu esteja sempre vou representá-la bem". |