Roberto Moreira Júnior começou desfilando como passista em 1970, aos seis anos, na escola de samba Unidos de Vila Maria. Em 1973, aos nove anos, ingressou na bateria mirim da escola de samba Mocidade Alegre, tocando surdo pequeno de segunda sob o comando de Mestre Lagrila. E mesmo tendo desfilado anteriormente, se interessou pelo samba ao sair como o primeiro garoto no carnaval paulistano a ingressar numa bateria. Tocava na bateria mirim, mas por obras do destino que não saberíamos explicar, já mostrava afinidades com o apito. Ocorreu na época um fato inusitado: Robertinho, então garotinho, mexeu em um dos armários na sala da bateria, pegando o apito mais apreciado pelo Mestre Lagrila que, ao saber do fato, irritado, suspendeu o garoto de ensaiar e de tocar em quaisquer instrumentos. Então, já apaixonado pelo ritmo, aos 12 anos, proibido de ensaiar na Mocidade, dirigiu-se à Barra Funda, o quartel general do samba, onde teve o privilégio de tocar com os melhores batuqueiros de São Paulo: Telha, Saci, Dadinho, Paulinho, Jamelão, Sarará, Gordinho, Tobias... As surpresas da vida não pararam por aí... Lagrila deixou a Mocidade Alegre, assumindo o comando da batucada verde e branco onde ambos se reencontraram novamente.
Músico por excelência, trabalhou com diversos artistas: Reinaldo, Bezerra da Silva e Branca de Neve. Na época, sua carreira de músico estava no auge e conciliar a carreira com a batucada não foi possível. Então, o amor pelo samba de quadra o tocou mais forte. Sábia a escolha, pois após a saída do Mestre Divino, período no qual já exercia a função de segundo diretor, lhe foi confiado o posto de primeiro diretor, em 1990. Conquistou o ápice dentro de uma batucada porque foi ritmista, tocou todos os instrumentos exceto a cuíca e, principalmente, porque têm um excelente relacionamento com os ritmistas da casa.
Ao assumir a bateria implantou as suas diretrizes, dando à mesma uma identidade própria. Convidou Otacílio Pereira, o Jamelão, para ser o segundo diretor e, ainda solicitou ao Laíla, diretor da Beija-Flor, na época, a desenvolver um novo esquema de armação da bateria. Após receber o projeto, utilizou somente 20% do mesmo, tendo o restante saído de suas próprias idéias. Para tanto, concentrou-se mais nos surdos e repeniques, fazendo uma distribuição mais nivelada entre as peças, por exemplo: 10 surdos de primeira, 10 surdos de segunda, 14 surdos de terceira, 72 caixas, 36 repeniques e 45 tamborins. No começo pensou que o resultado não daria bons frutos, mas na prática foi muito bom, porque houve uma afinação mais harmoniosa, que culminou em uma batucada mais leve. Como diretor gosta de trabalhar com jovens e crianças. Não se considera Mestre de bateria, pois segundo ele o Mestre é mais autoritário e às vezes distante de seus batuqueiros. Já o diretor é muito cúmplice dos mesmos, delegando funções dentro da batucada. -"A hierarquia é uma faca de dois gumes: alcançada a nota máxima, méritos ao time. Porém, se a mesma não é atingida de tudo, está sob a minha responsabilidade e por aturamos. Assim o trabalho é bem compacto e coletivo.”
Prega como norma e conduta conversar com os seus batuqueiros dentro de um ônibus, num bar, em frente à sede, desde que, com naturalidade. Aceita conselhos de seus batuqueiros, buscando sempre inovar com ritmos ousados, advertindo-os que durante os ensaios eles estão sob a sua coordenação. Todavia, no desfile oficial é ele quem está nas mãos dos batuqueiros que, bem preparados, devido aos ensaios iniciados em meados de julho, garantirão a nota máxima no quesito. Há doze anos como diretor da bateria e vinte e cinco anos no ritmo do Camisa Verde, conquistou sucessivas notas máximas durante oito anos seguidos, não tendo conquistado a mesma em dois outros carnavais, devido aos seguintes problemas: um breque chocado com o Intérprete na retomada (-1); e a vestimenta de um dos ritmistas incompleta (-0,5). Em 2001, ao iniciar o desfile, a bateria teve problemas, mas a sensibilidade do diretor fez a diferença para assegurar a nota máxima.
Neno admira muito as baterias com padrões característicos, por isso, as baterias do Nenê e do Vai-Vai são as mais apreciadas por ele que explica: “Gosto de batucada da qual não é necessário ver a farda para saber a qual agremiação se refere. Penso que a batucada do Camisa, Nenê e Vai-Vai em Sampa executam com personalidade e maestria os ritmos delas. Há um agravante com o ritmo paulistano que, a partir da década de 90, devido ao grande intercâmbio de alguns Mestres, esses passaram a adaptar a batida carioca no ritmo de São Paulo. Eu, Roberto Moreira Júnior, respeito, pois também estou sujeito às críticas, mas falar mal do trabalho dos meus colegas ou copiar o ritmo carioca é uma atitude que me recuso a ter. Em algumas agremiações o problema não está no padrão desenvolvido, mas na formação das baterias que em alguns casos contam com um número excessivo de determinadas peças sobre outras. Em São Paulo há bons batuqueiros, bons padrões, personalidade e competência. Conheci um batuqueiro, Ronaldo Coelho, tocador de repeniques habilidoso que tinha a capacidade de tocar com uma baqueta no tamanho de uma caneta e, também, o maior naipe de surdo de todos os tempos e meu ídolo no samba, o sambista perfeito, Carlos Alberto Tobias. Ambos, particularmente, são insuperáveis, podendo surgir no futuro alguém que os superem, fato que, até o momento não aconteceu. Fenomenais!".
Ao longo dos anos aprendeu a admirar três nomes: Lagrila, com quem iniciou sua trajetória no samba; Divino a quem atribui os méritos do ensinamento de distinguir as batidas de caixas e taróis e o falecido Mestre Marçal. "Onde quer que ele esteja tirarei o chapéu, pois através desse grande sambista herdamos o título de (FURIOSA)". Marçal, carioca da gema, ao deparar com a nossa batucada dizia: "Lá vem à furiosa". Marçal apreciava muito o ritmo da Barra Funda. Muitas alegrias o samba lhe deu, sendo duas inesquecíveis: Mocidade Alegre, em 1974, com um desfile de tema afro, marcado em sua vida até os dias de hoje e o mais importante de todos, em 1990 - Combustível da Ilusão, ano em que assumiu a direção da bateria da escola. No ritmo, acha que nada mais poderá ser criado, pois as batidas das peças já estão pré-definidas. Diz que há melhorias a ser feitas como a junção das peças, inovação das conversões e passadas ousadas. Conta com a presença de seus dois filhos na batucada, Fernando e Felipe, mas adverte que ambos não são privilegiados e nem estão sendo preparados para o substituí-lo. "Se o meu filho for o meu sucessor muito me alegrará porque o Mestre André, um dos melhores no país não tem como substituto o filho dele, Andrezinho, Grupo Molejo? Então, seria uma honra".
Neno está imortalizado não só pela sua competência, que já seria o bastante para isso, mas acima de tudo porque é um verdadeiro sangue alvi-verde, ritmista e diretor fiel aos versos deixados por Talismã em nosso hino "Sou verde e branco até a morte! Do verde e branco não me separarei." Provado através dos quinze anos que foi diretor e mais dois posteriormente (2007 a 2009). O conceito dos batuqueiros em relação o diretor: "Mestre Neno é simples, parceiro, músico, diretor, enfim, o melhor".
Que brilhe por seu caminho e saiba que a escola te respeita muito pelos serviços prestados. |