Nascido em Catanduva, no interior do Estado, Ideval Anselmo foi criado em Votuporanga e começou a brincar o carnaval nos bailes de salão. Aos 18 anos, veio viver em São Paulo e descobriu as escolas de samba. Diversas vezes se ouviu numa avenida paulistana um trabalho de Ideval Anselmo. Quando assistia aos desfiles de carnaval na Avenida São João, nos anos 60, o metalúrgico Ideval Anselmo achava que faltava algo no samba de São Paulo. Ele só soube dizer o que era em 1971, quando o prefeito Faria Lima convidou os sambistas cariocas da Acadêmicos do Salgueiro e da Estação Primeira de Mangueira para desfilar na cidade. "Foi aí, ouvindo a estrofe Ole lê Ola lá, Pega no Ganzê, Pega no Ganzá, do enredo Festa para um Rei Negro, que descobri o problema dos sambas paulistanos: a falta de refrão." O homem que tem o cetro de melhor compositor de todos em São Paulo (segundo o júri do jornal Folha de São Paulo), mesmo quando tem de levar às favas a modéstia, o faz com humildade".
Iniciou na escola através de um parente da esposa, entrou na ala de compositores do Camisa. Literatura de Cordel, a princípio, fez-se um mistério. Afinal, que diabo é esse Cordel? Depois, entendeu: "cordel" era "barbante", e isso, muito presente no Nordeste e no interior de São Paulo, ele conhecia. Talismã, o grande mestre, tinha o xodó de seu Inocêncio, e quebrar a resistência não seria fácil. E ele sabia disso. Tanto que não planejava vencer a disputa logo de cara, mas dali a quatro anos. Mas a vida não está aí para os nossos planos, e Ideval venceu a disputa. Ganharia também em 73 e 74. Em Atlântida e suas Chanchadas, ele e seus parceiros Zelão e Jordão, um carioca do Salgueiro, fizeram um samba que não passou pelo crivo da família. Resolveu, então, que o trocariam por outro. E o Camisa ganhava o seu terceiro título seguido. Narainã é o maior de todos para muitos e para o júri da Folha de São Paulo também. Para ele, não é mais do que um bom samba. Na prateleira, mesmo, está Almôndegas de Ouro.
Em 79, combinou com Zelão e Jordão que comporia o samba em casa. Toca que espera, toca que espera, e nada deles aparecerem. Na véspera do prazo-limite, eis que passa por um bar na Barra Funda e ouve: - Que samba o de vocês, hein? - Como assim? - Ora, o Zelão e o Jordão passaram por aqui e cantaram o samba. Tá bom prá caramba. E essa agora? Os dois compuseram à sua revelia. Não daria tempo de elaborar um samba naquela altura do campeonato. Fora o trabalho com o dilema a martelar a mente. Então decidiu: Ah! Dá tempo, sim! Não seria um revés desses que o faria ficar de fora da disputa. Pediu dispensa do trabalho, e lá foi ele correr atrás do tempo que, impiedoso, não cansava de avisar-lhe que se expiraria à noite. Um harmonia apareceu em casa para aumentar a aflição. Quando estava para terminar, a concentração fugiu-lhe ao controle. Correu ao boteco para tomar a inspiração que faltava.
A quadra fervia de compositores. Estava todo mundo lá. Só faltava o Ideval. Com o samba escrito num papel de pão, os concorrentes não perderam a chance de tirar uma onda. Não ligava. Qual não foi a surpresa dessa gente quando se viu suplantada por aquele fedelho, com um samba rústico e concebido de última hora. E iria mais longe: sagrar-se-ia campeão do carnaval. No total, Ideval sacramentou nove sambas na verde e branco. Além de Almôndegas, há outro favorito do mestre: Do Palco ao Asfalto, o Resumo da Ópera. Há muito afastado da Barra Funda, fora convidado a voltar a compor. O tempo fez dele um estrangeiro dentro da quadra. Não mais havia nenhum conhecido. Na elaboração do samba, um triunfo que guarda boa parte dessa afeição. O vulto do samba despertava do sono profundo os vultos do erudito, e os convocava a participar da epopéia chamada carnaval. O metalúrgico explica que para escrever um samba-enredo vencedor é preciso não sair do tema proposto pela escola, manter a criatividade e saber espalhar "maldades" na letra. Usada no bom sentido, a expressão refere-se a truques para resumir uma frase numa palavra ou definir termos de duplo sentido.
- "Antigamente, os sambas ficavam quilométricos e detalhavam muito mais o enredo. Depois, com a interferência da mídia e das gravadoras, tudo mudou". O compositor ressalta que as mudanças no samba-enredo vieram acompanhadas de alterações em todo o carnaval. "Hoje, a festa está muito profissional, luxuosa, voltada para o turista e para a imprensa", reclama. "O verdadeiro carnaval para mim é o do povo, aquele em que se pode extravasar o que fica reprimido ao longo dos 364 dias no ano".
Pois a noite é toda música, é só lirismo. Ideval andou ainda por Nenê, Tom Maior, Rosas de Ouro e Peruche. Por essa última, voltará à avenida. O andarilho do samba ainda tem muita poesia para soltar por essa estrada. O destino ainda há de colocar um trevo, de novo, em seu caminho. Sua inspiração motivou 21 apresentações de escolas do grupo especial e mais cerca de 50, dos grupos 1, 2 e 3 e blocos. Pelos trabalhos costuma ganhar apenas uma ajuda de custo. Algumas das composições se devem apenas a ele. Em outros casos, trabalhou com parcerias, a famosa parceria do" trio-metralha", composta por Ideval, Zelão e Miro. Mudar de agremiação, não representa problema, diz Ideval. "Não tenho preferência, pois gosto da luta comunitária de todas". "As pessoas mudam de escola, mas o samba perdura". |